TAP anuncia nova reformulação da operação no Porto

A TAP anunciou uma forte reformulação da sua operação, abandonando a política de crescimento agressivo e de diversificação de mercados e adotando uma de maior contenção e foco nos destinos mais rentáveis. No caso do Sá Carneiro, isso significa pelo menos alterações em 6 dos 17 destinos diretos servidos a partir do Porto: Barcelona, Funchal, Lisboa, Londres, Madrid, Nova Iorque e São Paulo. A esses há que somar Lyon, rota que estava previsto iniciar em aproximadamente um mês, mas que vai ficar na gaveta.

Recorde-se que a transportadora nacional apresentou um prejuízo de 118 milhões de euros em 2018, equivalente a uma margem negativa de quase 4%. Numa altura em que as grandes companhias europeias estão a rever em baixa as suas previsões de lucro, e que os acionistas privados da TAP preparam a abertura do capital à bolsa, uma política comercial mais conservadora parece quase óbvia.

No mercado doméstico a partir do AFSC, Funchal e Lisboa vão receber um voo diário extra cada um, para um total de 3 e 14 respetivamente. Para a capital, o mais provável é que se trate da extensão de um dos períodos de hora-ponta, em que existem voos a cada hora. No caso da Madeira foi avançado que o voo será ao meio-dia, aproveitando o tempo entre voos transatlânticos do Airbus 321LR atualmente baseado no Porto para dar o salto à Madeira. Com esse 3º voo, o Funchal verá uma melhoria muito significativa nas oportunidades de ligação via Porto à rede de destinos da TAP e dos seus parceiros. Simultaneamente, a TAP passa a oferecer um produto Funchal - Nova Iorque via Porto com escalas muito curtas, garantidas, e com um serviço a bordo consistente, nomeadamente com uma verdadeira executiva em todo o percurso.

Simulação de possibilidades de ligação com o 3º voo diário da TAP entre o Porto e o Funchal (a vermelho). Dados: aerOPOrto

A nível europeu, a TAP vai introduzir um serviço shuttle entre o Porto e Madrid e suspender as rotas de Barcelona, Lyon e Londres City. A transportadora nacional pretende duplicar a atual oferta de três voos por dia para a capital espanhola para seis, o que daria sensivelmente um voo a cada três horas. Madrid é um dos grandes mercados europeus, e devido à proximidade, permite captar um leque muito amplo de passageiros em ligação sem grandes riscos. Para se ter uma ideia, em capacidade medida em ASKs (nº de lugares x quilómetros percorridos), seis voos diários em Embraer 190 para Madrid equivalem a dois voos diários com esse mesmo avião para Lyon.

Capacidade da TAP no Porto, medida em ASKs. A vermelho as rotas que serão suspensas no final de Outubro, a verde escuro as que serão reforçadas em 2020. A tracejado a capacidade prevista para Lyon, caso a ligação avançasse. Semana de referência: 8 a 14 de Setembro. Dados: aerOPOrto e TAP Portugal

Pelo que foi avançado, o formato será semelhante ao da Ponte Aérea entre o Porto e Lisboa, o que implicaria antecipações gratuitas de voos no próprio dia existindo disponibilidade, um produto diferenciado que provavelmente será muito atrativo para o passageiro de negócios. Aumentando capacidade para Madrid, a TAP aproveita ainda para reduzir a margem de manobra das concorrentes Iberia e Air Europa, numa altura em que ambas estão a procurar crescer no mercado brasileiro.

CompanhiaNº de rotas Europa - Brasil% de lugares Europa - Brasil (Jan. 2020)
TAP Portugal - Azul1430%
JV IAG + LATAM 926%
Air France - KLM921%
Lufthansa - Swiss - Edelweiss510%
Alitalia27%
Turkish Airlines13%
Norwegian12%
Air China11%

Por outro lado, Barcelona e Londres City deixam de operar no final de Outubro. Ambas tinham sido lançadas no ano passado, não tendo sobrevivido ao período experimental de dois anos que a TAP tem atualmente para as suas novas rotas. No caso de Barcelona, não só o regresso da TAP supôs um grande aumento de capacidade, como os concorrentes ainda acrescentaram mais voos. O resultado foi um aumento de 77% em apenas dois anos, criando uma pressão muito forte nas tarifas médias. TAP poderia ter reformulado a operação para um voo diário e ajustado os horários para permitir ligações a todas as frequências de longo curso (atualmente, apenas permite ligação ao Rio de Janeiro, e só no sentido Barcelona - Porto - Rio), no entanto, Barcelona tem visto um aumento grande de oferta de voos diretos de longo curso, nomeadamente de baixo custo, o que tem obrigado os restantes operadores a rever as tarifas de conexões em baixa.

Evolução da rota Porto - Barcelona nas últimas três temporadas de Verão. Dados: aerOPOrto

No caso de Londres City, foi a aposta da TAP para crescer na capital britânica com novos voos, visto os aeroportos de Gatwick e Heathrow terem capacidade livre muito reduzida ou nula. A aposta infelizmente não foi bem sucedida. As ocupações discretas obtidas e a quase nula conectividade, combinadas com os elevados custos operacionais do aeroporto de City, fizeram a operação da TAP naquele aeroporto inviavel. A transportadora diz que vai apostar na introdução de aviões de maior capacidade para os outros aeroportos londrinos por forma a repor parcialmente a capacidade perdida.

Ocupações médias da rota Porto - Londres City e estimativa de tarifas médias para break even. Elaboração aerOPOrto a partir de dados da UK CAA e da TAP Portugal.

Finalmente, no longo curso, a TAP anuncia novas frequências semanais para Nova Iorque e para São Paulo, atingindo o voo diário e os quatro semanais respetivamente. Ambos destinos estão a ser reforçados já este ano com excelentes resultados, sendo que no caso de São Paulo há ainda que contabilizar a chegada da Azul, ela própria já com aumentos anunciados na sua operação para o Porto. Com isto, em 2020 a operação TAP + Azul no AFSC seria composta por voos diários para Nova Iorque, sete semanais para São Paulo e dois semanais para o Rio de Janeiro.

Interessante também é o facto do longo curso ser reforçado apesar da diminuição nas possibilidades de ligação. Isto poderia ser um indicador que a procura ponto-a-ponto está mais forte do que o inicialmente planeado, e/ou de que os destinos europeus já em marcha estão com volumes de passageiros em ligação mais elevados. Em ambos os cenários haveria uma operação mais concentrada, e teoricamente mais rentável.

Note-se que as únicas alterações firmes são os cancelamentos das ligações a Barcelona e Londres City, que terminam já no final da presente temporada de Verão, tal como é firme o recuo na abertura dos voos para Lyon. Para os reforços foi apenas avançado que serão efetivos em 2020, mas sem datas concretas, sendo que as alterações anunciadas não ocupam toda a capacidade adicional de aviões que a TAP vai ter no próximo ano. Assim sendo, é de esperar que até ao inicio da temporada de Verão 2020 a TAP divulge mais detalhes e possivelmente mais ajustes.

15 comentários em “TAP anuncia nova reformulação da operação no Porto”

  1. Pedro, em que horas estão livres o A319 e o E190 e que possibilidades de rotações a novas rotas existem com esta programação já anunciada?
    Dentro dos corredores da TAP fala -se da entrada da TAP em BOS.
    Achas que arriscam com 1 semanal com o A332 que está livre (4GRU+2GIG) ?

    1. O A319 ficaria livre à primeira hora, e o E190 à última, mas eles teriam flexibilidade horária para os ter a qualquer hora. Os tempos de rotação deveriam permitir voos até 3h, daí eu pensar que tanto FCO como FAO poderiam ser uma possibilidade.

      Com o A332 acho que não vão fazer nada com essa frequência adicional, vão deixar para reserva. Podia funcionar como 1xw para LAD se houvesse um A321LR que fizesse pelos menos uma outra frequência semanal, mas para BOS é demasiado.

    1. Não sei se estaria, à parte de algum amadorismo com a questão de Lyon não há grande coisa a reclamar. Principalmente haverão reforços no longo curso, e mesmo a rede europeia acabará por crescer ainda que com menos destinos.

  2. O meu comentário rápido:

    Lyon: Fiquei surpreendido, estava convencido que ia funcionar muito bem. O facto de ser cancelado nesta altura cheira um bocado a amadorismo realmente, tal como o cancelamento de Basileia em Lisboa. Também pode ser um sinal que estão com menos paciência para aguentar perdas iniciais e trabalhar mercados.

    Barcelona: Na segunda parte da analise a Espanha tinha previsto um cenário em que a TAP baixava a um diário, porque realmente a Vueling estava a pressionar muito e o volume da rota ficaria muito inflacionado em 2020.

    Londres City: Com as ocupações que tinha estava fraco, tanto no Porto como em Lisboa, era quase inevitável. Supostamente vai ser compensado com aviões maiores para Gatwick, o que eu imagino seja substituir as frequências em Embraer por Airbus. Em passageiros provavelmente será a mesma coisa.

    Funchal: O 3º diário era uma falha óbvia já faz tempo, fico surpreendido por usarem o A321LR, pensei que o enviariam antes a Paris, mas para a Madeira vai bem empregue também. Uma excelente noticia.

    Lisboa: Mais diário menos diário, nesta altura, nem faz grande diferença. Espero que seja sinal de que finalmente acertaram com o modelo da Ponte Aérea, e que a coisa está a funcionar bem.

    Madrid: Uma aposta curiosa, mas a verdade é que desde a substituição dos E145 pelos E190 tem sido um sucesso. Começou com 1 diário, agora vai em 3 e no próximo ano sobe a 6. Ao ser um voo de 1h com aviões pequenos, o risco é muito baixo. Se em cima vai dificultar a vida da Iberia, e (principalmente) da Air Europa, melhor ainda.

    Nova Iorque: Expectável, ainda assim, bom sinal.

    São Paulo: O 3º semanal está a correr muito bem e os Azul também, mais que justificado o salto para o 4º semanal. Curiosamente há bastantes passageiros a voar Azul num dos sentidos e TAP no outro, não se tem canibalizado, e aposto que com um combinado de 7 semanais vai correr bem também.

    De forma geral, o que eles fizeram não foi mais que dar algumas boas noticias para S20 por forma a mascarar o facto de estarem a aplicar cortes grandes agora para W19. Boa jogada por parte do departamento de relações publicas.

  3. De que forma será possível fazer ligações entre voos em Madrid ?
    Penso que a TAP não se entregará ao codeshare com a Iberia …

    1. Permite fazer ligações em Madrid às companhias parceiras (Air China, Air India, Ethiopian, etc.), mas principalmente permite fazer ligações no Porto a todos os destinos.

    1. Quais são as rotas ridículas que a TAP abre a partir de Lisboa? : D

      Não entendo o anti-lisboísmo / TAP de alguns neste fórum. Portugal é um dos poucos países europeus (e não digamos para o seu tamanho) em que a companhia aérea de bandeira tem um segundo hub. Nem a França nem o Reino Unido nem a Itália têm algo semelhante. Mesmo na Espanha, BCN tem apenas Vueling, que é de baixo custo.

    2. Concordo com a resposta de Galiza… o hub da TAP no Porto segue a linha da maior parte das companhias da ‘Star Alliance’ com mais que um hub em cada companhia (LH, Swiss, Turkish…) e vejo que a presença em termos de rotas tem vindo a aumentar (não tanto como gostaria, mas já tem algum impacto…)
      Como não sou muito a favor de LCC, talvez alguma pudesse deixar espaço para a TAP, ‘penso eu de que…’

    3. Qual segundo HUB? Tira as palas. Como portuenses e nortenhos, onde pagamos tanto como os lisboetas para ter um serviço público decente da TAL, e temos migalhas em comparação

  4. Pedro, desde já os meus parabéns pela excelente publicação como já é habitual 😀
    Tenho, no entanto, três questões:
    1- Qual será então o impacto desta reformulação da oferta no Porto, quer a nível médio de lugares disponíveis bem como o nº de frequências, considerando que a ponte aérea para Madrid será operada por E190;
    2- Quanto a Londres, teremos mais uma ligação a LGW ?
    3- Falaste do reforço da Azul. Qual será, na prática, esse reforço ?

    Muito obrigada pela qualidade dos teus textos!

    1. Pedro, mais uma publicação de excelente qualidade, parabéns.
      Eu ainda tenho uma dúvida e se prende precisamente com a frota da Tap. . .fiquei com a ideia que eles vão adiantar no calendário a substituição dos aviões mais velhos para ficar com uma frota mais eficiente e econômica.
      Por exemplo, os A340 era para serem substituídos em 2020 e no entanto já anunciam o 339 para Luanda e Maputo para este ano.
      Caso o plano da substituição da frota seja muito antecipado, ainda continuas a pensar numa capacidade extra para o ano muito elevada?

      P.S: Pedro, eu sei que o meu Português e a minha gramática não é grande coisa. Te peço desculpas por tal, sou Português mas não de nascimento. . .e apesar de estar cá a longos e longos anos, o Português é uma língua mesmo muito difícil. 🙁

    2. Apenas posso reafirmar o que já publiquei diversas vezes. A Tal é a operadora de Lx. O resto de Portugal serve apenas para render homenagem ao centralismo. Isto só muda quando a maioria entender que a nossa alternativa aos voos diretos é Madrid, Frankfurt, Istambul, Dubai etc e a capital do império que fique com o seu mercado.
      A verdade é que o efeito diceminador sempre propagado apenas serve para encher o centralismo.
      Como se pode entender as frequências da TAL para Africa, Brasil e EUA de Lx comparadas com as do Porto.
      NW quando entra a United.
      S. Paulo quando entra a Azul( do mesmo grupo).
      Por isso entre outros recomendo Frankfurt ou Istambul para ir a Moçambique ou outro destino em África.
      Tudo é melhor que Lx.

    3. Obrigado MSA, Jorge!

      MSA, sobre as tuas perguntas:
      1. Para o Inverno, no Porto, ficar com balanço zero de capacidade à custa do ajuste da Ponte Aérea Airbus – Embraer até Fevereiro. Em nº de passageiros deve crescer. Para o Verão espero crescimento de passageiros, vamos ver o que será a programação final. Supondo que FNC, EWR e GRU resultam de maior aproveitamento do A321LR e do A332, que MAD e LIS se vão fazer com o Embraer libertado por LYS e LCY, e que LGW vai ser reforçado com o Airbus libertado pelo 2º diário de BCN, teríamos ainda espaço para uma rotação em Airbus e outra em Embraer. Gostaria que fossem FCO e FAO, mas independentemente disso, o panorama geral é positivo. Acredito que podem chegar aos 3MPA em 2020.
      2. Esse tal reforço com os Airbus, substituindo as frequências que hoje operam com Embraer.
      3. Por agora são as substituições de A332 para A339.

      Jorge, sobre o teu português, se não tivesses dito nada eu não teria suspeitado, não faltam nativos a escrever pior. Relativamente a tua pergunta, sim, mesmo acelerando a saída de aviões mais velhos há margem. Isto no fundo foi um truque de relações publicas, a programação final só virá mais para a frente. Repara que só apresentaram algum longo curso, onde o facto de fazerem anúncios agora não afeta o planeamento da concorrência, e os reforços para Espanha, que são de baixo risco.

      Luís, sendo a TAP culpada dessa atitude no passado, em justiça, está a melhorar. Eles podiam ter melhorado Nova Iorque só no Verão, que é quando está a United, mas melhora no Inverno também, quando sabem que a United dificilmente estará. Mas agora tem os A321LR, que antes não existiam. Se fosse só para bloquear, tinham metido diário com o A332 no ano passado, e este ano a United já não voltava. Para São Paulo o aumento foi planeado com a Azul, também nada a assinalar.

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