Análise: Estatísticas 2019

O aeroporto do Porto fechou o ano de 2019 com 13.105.359 passageiros, um crescimento de 10% relativamente a 2018. No transporte de carga os números são também positivos, com 41.6 mil toneladas movimentadas no ano passado, 5% acima de 2018. O volume de passageiros marcou um novo recorde absoluto do Francisco Sá Carneiro, enquanto o de carga foi o melhor da década que agora termina.

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

Passageiros

O ano passado foi o 10º ano consecutivo de um ciclo de crescimento que se iniciou em 2009, que permitiu ao Porto entrar no grupo dos 50 principais aeroportos europeus e atrair companhias como a Emirates ou a United.

Comparativamente a 2018, verificamos que o crescimento de 10% no nº passageiros em 2019 esteve em linha com o aumento no nº de lugares, também de 10%. Desta forma, a ocupação média anual manteve-se inalterada na casa dos 85%.

Total_Pax_OPO
Nº de passageiros no Aeroporto Francisco Sá Carneiro (AFSC) entre 2009 e 2019. Fonte: ANA Aeroportos

Principais destinos de passageiros

No quadro dos principais destinos, houveram poucas mudanças. Paris manteve-se como a rota com maior procura, superando os 1.6 milhões de passageiros (+2%), e França como maior mercado, com 2.7 milhões (+7%). No total foram servidos 93 destinos em 27 países através de voos regulares, sendo que desses 93, os 14 principais concentraram mais de 2/3 do total de passageiros.

O mercado em maior destaque foi Espanha. Com um aumento de 31% e um total de 2.1 milhões de passageiros, o mercado vizinho superou o nacional e ascendeu à posição de segundo maior mercado no AFSC. Contribuindo para isso estiveram os excelentes resultados da ligação a Madrid, que com 970.000 passageiros (+27%) superou Londres como 3ª principal rota do aeroporto do Porto, e quase superou a barreira do milhão de passageiros.

Nota ainda para o mercado fora da Europa, que cresceu 38% para os 650.000 passageiros, ficando já acima de mercados como Itália ou Holanda.

 

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PaísPassageiros2019 / 2018 (%)
França2.720.818+7%
Espanha2.064.517+31%
Portugal1.929.212-3%
Suíça1.194.752=
Alemanha1.131.057+5%
Reino Unido1.108.662+11%
Itália578.570+17%
Bélgica470.991+18%
Holanda435.093=
Luxemburgo344.598+7%
Brasil146.305+54%
Polónia127.894-3%
EUA124.995+32%
Marrocos120.417+79%
Canadá119.998+32%
Turquia96.569+32%
Irlanda92.006+28%
Angola72.948+3%
Malta48.164+68%
Hungria41.685+4%
Outros136.108 

Carga

Em contraste com o crescimento linear verificado no transporte de passageiros, o de carga tem tido um desempenho irregular e níveis de crescimento mais baixos. Ainda assim os resultados de 2019 foram positivos, com um crescimento de 5% relativamente a 2018 e o melhor resultado da década.

Contribuindo fortemente para estes números estiveram o reforço da operação de longo curso, principalmente da Emirates para o Dubai, e a introdução do cargueiro semanal para Istambul da Turkish Cargo. A falta de oferta de longo curso é desde há muito o calcanhar de Aquiles do segmento de carga no Porto, pelo que reforços deste tipo inevitavelmente se vão reflectir nos resultados globais.

Volume de carga no AFSC entre 2009 e 2019. Fonte: ANA Aeroportos

Principais mercados de carga

Nas principais rotas, mantém-se uma grande preponderância das ligações exploradas pelos integrators (DHL FedEx e UPS), que movimentaram mais de 60% da carga transportada no AFSC em 2019.

Seguem-se as ligações a hubs, nomeadamente os de longo curso. Apesar da pouca representatividade a nível de passageiros, foram responsáveis por cerca de 15% das toneladas de carga movimentadas no Porto. Nota para a operação da Emirates para o Dubai, que foi a principal rota de carga no longo curso, e da Turkish para Istambul, que entre o reforço dos voos regulares e a introdução do cargueiro semanal tornou-se no principal corredor de carga no médio curso (excluindo carga movimentada pelos integrators). Recorde-se que ambas ligações apenas iniciaram na 2ª metade do ano, pelo que uma operação a ano completo teria seguramente resultados mais expressivos.

 

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2020

2020 tinha tudo para ser mais um ano com excelentes resultados, no entanto, a situação atual do mundo veio mudar radicalmente essa previsão. Nesta altura há demasiadas incógnitas para se poder fazer uma previsão exata, no entanto, entre acções já tomadas pelas companhias aéreas, o desempenho do mercado de aviação na China e declarações de lideres políticos, temos algumas pistas para entender onde podem estar os pontos mais frágeis:

  • Longo curso: nesta altura, parece provável que o controlo mais apertado de fronteiras está para ficar. Os casos de pessoas retidas noutros continentes por fechos quase imediatos de fronteiras também não estão esquecidos, e vão impactar este tipo de viagens fortemente até que a situação esteja normalizada. A quebra nas viagens de negocio, importantes para as receitas da classe executiva, acrescem a este panorama negativo. A tentação das companhias será concentrar este tipo de voos via hubs ou fazer recurso a voos triangulares / tags, principalmente os que requerem o uso de aviões wide-body. Seguramente ficará em mínimos no Porto este ano, e companhias como a Air Canada, a Azul e a United já confirmaram que este ano os seus voos para o Porto ficam suspensos.
  • Médio curso não-Schengen: à semelhança do longo curso, o controlo de fronteiras mais apertado ou até mesmo o fecho total serão um entrave ao retomar dos voos. À excepção do Reino Unido, será de esperar um impacto muito forte neste segmento.
  • Voos Schengen e domésticos: o mercado doméstico será o mais resiliente, não só pelas distancias envolvidas mas pela maior segurança do passageiro ao marcar as viagens. Um efeito semelhante é esperado para voos dentro do mercado Schengen, caso se confirme o levantamento gradual das restrições agora impostas. Rotas com poucas frequências ou operadas por companhias em maiores dificuldades financeiras serão as mais vulneráveis.

Chegados a esta altura, podemos também olhar para o que foram os primeiros quatro meses de 2020 e projectar o mês de Maio com os dados que estão disponíveis neste momento:

 

Jan_Mai_2020_Seats_OPO
Nº de lugares programados inicialmente (azul escuro) e nº de lugares disponibilizados (azul claro). Valores para Maio previstos com base na programação das companhias à data de publicação do artigo. Dados: aerOPOrto

O impacto começou a sentir-se de forma intensa na 2ª metade do mês de Março, com Abril praticamente a zero. Maio, dependendo do que serão as decisões relativamente à reabertura de fronteiras, pode já ser o inicio de alguma recuperação.

 

Para o resto do Verão, a julgar pelas programações das companhias aéreas, o panorama ainda é relativamente positivo, com reduções significativas mas não tão fortes como em Março – Maio. Por outro lado, as companhias aéreas precisam de dinheiro, e ter um maior nº de voos à venda ajuda a captar receita, podendo sempre cancelar os voos com +15 dias de antecedência e oferecer alternativas como vouchers ou outros horários / datas. Desta forma, há uma grande probabilidade de novos cancelamentos serem anunciados nas próximas semanas.

Na China, o mercado que está mais avançado nas consequências do impacto do COVID-19, o que vemos é uma recuperação em forma de “U”, com uma queda inicial muito forte seguida de uma recuperação lenta mas crescente, essencialmente à base do seu mercado interno. Na Europa provavelmente seguiremos o mesmo padrão, e embora as programações das companhias ainda não o reflictam, as sua planificação de frota vai nesse sentido. Isto significaria uma retoma progressiva em Junho, e uma operação a 50% lá para Julho.

O forte desempenho do Porto nos últimos anos é um sinal de esperança para a recuperação. Em momentos de fortes choques negativos, a indústria da aviação tende a focar-se nos maiores mercados e no que funcionava, antes de explorar novos mercados. Nesse cenário, o papel crescente do AFSC na Europa coloca-o numa posição interessante nessa lista de prioridades. Na última grande crise da aviação europeia a ANA, juntamente com muitos agentes públicos e privados da região conseguiram transformar a situação em oportunidade. Agora é novamente o momento de colocar mãos à obra, aproveitar as oportunidades e preparar um novo ciclo de crescimento.

7 opiniões sobre “Análise: Estatísticas 2019”

  1. Parabéns Pedro pelo excelente artigo. Esperamos todos que a recuperação seja, tal como referes, em U. Relativamente ao artigo tenho uma questão, voos triangulares é o mesmo que tags? o que significa a sigla?

    1. Obrigado Carlos! Voos triangulares e tags são coisas diferentes. Um triangular é um voo com 2 paragens (A -> B -> C -> A), um tag é um voo com um segmento adicional (A -> B -> C -> B -> A).

  2. Excelente artigo, com a qualidade que o Pedro nos habituou! Pena é que a pandemia do COVID-19 possa vir a destruir todas as/os melhores perspectivas/desejos para o AFSC em 2020; a partir deste momento, apenas podemos desejar conter/minimizar esses estragos.
    Por ora fiquemos em casa e de boa saúde, esperando poder em breve voltar a viajar tranquilemente! mas sempre com cuidado e de boa saúde 😉

  3. Excelente artigo. Parabéns Pedro. Vai ser um grande desafio mas teremos as condições para um crescimento relativamente rápido em breve. Assim espero, que nos adaptemos às novas normas, privilegiado a segurança e retomando o ‘normal’ possível até termos uma vacina. Vai ser bom e espero acompanhar este futuro grande crescimento.
    Já agora, alguém sabe como decorrem as obras do taxiway?
    Bom fim de semana

    1. Obrigado Diogo! Sobre o taxiway, a informação que tenho é que as obras continuam normalmente, em principio terminadas a tempo de S21.

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